A PSICANÁLISE E A DES-COLONIZAÇÃO DO DESEJO

 

Eduardo Leal Cunha – UERJ

 

 

Acho que uma boa forma de começar a minha fala seria apresentar rapidamente o que eu pretendo trazer até vocês, mas na verdade, o que eu gostaria mesmo seria de levá-los até alguma coisa. Pode soar um pouco pretensioso mas acredito que toda e qualquer reflexão psicanalítica deve ter como objetivo, tirar as pessoas do lugar em que elas se encontram, fazê-las assumir um outro ponto de vista, considerar outras possibilidades de posicionamento subjetivo.

Assim, eu gostaria de levá-los ao encontro de duas questões que têm me perseguido nos últimos tempos, as quais eu acredito que podem nos ajudar a pensar a contemporaneidade e as nossas angústias cotidianas. A primeira destas questões, ou talvez seja melhor dizer, o primeiro desses campos temáticos é o que eu chamarei aqui de “o domínio das identidades”, e o segundo campo temático eu penso que pode receber o nome de “relações de dominação”.

Para adiantar, eu diria que o terreno em que essas questões se encontram, e para o qual eu gostaria de levá-los, é o campo da afirmação do desejo, da luta pela produção de uma singularidade que legitima o sujeito enquanto tal.

Isto quer dizer que eu estou tomando como pressuposto que eu só me constituo verdadeiramente como sujeito na medida em que posso afirmar positivamente o meu desejo. Para evitar qualquer mal entendido acho importante dizer que eu não acredito que esse desejo seja único, fundamental, originário ou que possa ter qualquer atributo da ordem de uma essência, ou seja, eu não acredito que exista em mim, como em cada um de vocês, um desejo único. O desejo, como o demônio, é plural, e seu nome é legião.

Esse campo de afirmação do desejo é, então, de acordo com o que eu estou propondo para vocês, o campo de constituição da subjetividade, da produção de um sujeito livre e singular. E é nesse campo, eu não vou resistir a uma brincadeira, é nesse campo minado, que dominação e identidade se encontram.

O que eu estou entendendo aqui como dominação é o fato de se tornar inviável para o indivíduo que ele enuncie livremente o seu desejar. Eu posso assumir essa posição dominadora impedindo o outro de falar sobre o seu desejo, essa é a dominação mais burra talvez, ou obrigando-o a enunciar o seu desejo de uma maneira tal que esse desejo já não lhe pertença, o violente ao invés de constituí-lo. O resultado dessa impossibilidade de desejar, de por o seu desejo em circulação, é que o indivíduo perde a liberdade de se constituir na sua singularidade.  Quando coloco o meu desejo em circulação, pelo fato mesmo de que o desejo é movimento e se transforma, eu também me transformo, posso enfrentar o meu desamparo e criar. Se, pelo contrário, eu não consigo estabelecer um ponte entre mim e o outro, ou outros, ao meu redor, através da minha ação desejante, eu, para falar muito francamente, não tenho muitas chances de ser feliz. A dominação incompatibiliza o indivíduo com o seu desejo e se constitui assim na forma mais violenta de privação de liberdade que pode existir.

Eu queria ressaltar, para me proteger dos mal entendidos, e obviamente marcar uma posição teórica e, espero, também política, que ao falar do outro eu estou aqui falando muito concretamente de todo outro sujeito com qual coexisto no mundo e não de um outro grande, absoluto ou transcendente.

Bem, voltando a essa violência que marca as relações de dominação, e cujo emblema eu proponho que seja a relação colonial, essa violência não é rara, dramática ou espetacular. Ela se dá no nosso cotidiano, a cada momento, entre nós e as pessoas que nos cercam, das mais diversas formas, sempre que se nega a alguém a possibilidade de encontrar uma maneira singular de enunciar o seu desejo.

A velha Europa colonizou o novo mundo, mas a medicina colonizou os nossos corpos, a mídia nos coloniza diariamente, e os psicanalistas, infelizmente, em muitos momentos tem exercido um poder colonial sobre pessoas que os procuram em busca de ajuda. Colonizar é expropriar, retirar do outro o domínio sobre o seu território e colocá-lo em uma posição de submissão. É o que acontece quando se pretende retirar de uma mulher o livre arbítrio sobre o seu corpo, ou quando se ensina, de maneiras bastante perversas, a um homossexual que o seu desejo pela pessoa que ama é incompatível com o seu corpo.

Já nesse momento, eu gostaria de ressaltar que a reação a essa ordem de violência pode ser também extremamente violenta, pode voltar-se contra os outros ou contra a própria vítima da dominação, ser mais ou menos eficaz ou eficiente, mas nunca será sem sentido e terá sempre o papel, heróico, de deflagrar combates e estabelecer metas para a conquista da liberação.

Eu vou me referir rapidamente a dois exemplos de reação violenta à dominação, situados em séculos diferentes, envolvendo tipos diferentes de pessoas e que no entanto tem o mérito de nos causar o mesmo grau de mal-estar, de despertar algo da ordem do estranho, que nos assusta mas que certamente nos fala de algo que nos é muito íntimo.

O primeiro exemplo vem de Elisabeth Fox-Genovese em seu livro sobre as mulheres escravas nos Estados Unidos, e é também citado por Bhabha em seu livro “O local da cultura”: a autora fala do infanticídio cometido pelas mães escravas para que seus filhos não nascessem escravos, para que o senhor não fosse dono também dos seus filhos. Essas mães então matavam as crianças recém nascidas.

O segundo exemplo, é dos dias de hoje, e está na Internet. É o movimento de gays de classe média americana em defesa do sexo sem proteção, inclusive entre um soropositivo e um soronegativo. Os adeptos do “barebacking” acham que têm o direito de entender que o seu prazer e a comunhão total com o parceiro podem ser mais importantes que a vida. Barebacking, originalmente é quando se monta um cavalo sem cela. Alguns afirmam literalmente que a contaminação pelo vírus da AIDS é a única forma de libertação dos seus corpos e do seu prazer.

O que eu gostaria ressaltar nesses dois exemplos – eu não vou me estender neles – é que a dominação coloca para o sujeito uma situação de escolha entre a vida e a morte. Eu posso estar falando de uma morte simbólica, de uma impossibilidade de viver plenamente como sujeito, mas posso me referir também a uma morte física.

Eu espero que essas histórias tenham causado em vocês o mesmo mal-estar que causaram em mim e, a partir daí, eu passo para o lado, digamos mais positivo, da minha exposição, para falar do domínio das identidades. Isto porque eu acredito que a constituição e o fortalecimento de vínculos identitários, e mesmo a circulação entre diferentes identidades, é, para cada um de nós, na nossa vida cotidiana, talvez a melhor maneira de enfrentar as investidas colonizadoras feitas pelos donos do poder, os vitoriosos do dia, sejam eles o poder econômico do império americano, o senso comum do politicamente correto, o saber médico-farmacológico ou, como diria Barthes, todo discurso de poder, aquele que engendra o erro e, por conseguinte, a culpabilidade daquele que o recebe.

Eu vou explicar agora, muito rapidamente, o que eu entendo, pelo menos até o momento, pela noção de identidade. Para começar, eu quero propor que a identidade é o modo pelo qual o sujeito se liga, se conecta, a outros indivíduos, para, paradoxalmente, afirmar a sua singularidade. Quero dizer também, que essas operações identitárias se dão no campo da fantasia, no campo das nossas ficções privadas, responsáveis, no nosso funcionamento psíquico, por dar conta, por explicar, para nós e para os outros, as nossas relações com o mundo e com nós mesmos.

A noção de identidade não é uma noção propriamente psicanalítica, ela não se encontra em nenhum dos quatro principais dicionários dedicados ao vocabulário da psicanálise e também está ausente dos índices da edição standard das obras de Freud.

Freud, no entanto, usou bastante a palavra identidade, e nesse uso acredito que podemos encontrar pistas importantes para que possamos encontrar esse lugar para a noção de identidade no pensamento psicanalítico.

Para mim, a mais importante destas pistas é dada num pequeno texto, num discurso perante uma sociedade judaica. Ali, Freud fala, de uma maneira muito bonita, de uma identidade íntima, de uma familiaridade entre ele e o povo judeu. E o mais importante é que o que lhe garante essa familiaridade íntima é  a possibilidade de ser escutado, de colocar em circulação as suas idéias mais secretas, o que ele tinha de mais maldito e singular: o seu conhecimento dos subterrâneos da alma humana. O reconhecimento de uma identidade está aí muito claramente, na possibilidade de falar e ser escutado. Mais exatamente, na possibilidade de falar sobre si-mesmo.

E para falar de si-mesmo, o sujeito fantasia, cria ficções privadas e vai, aos poucos atuando como narrador, e intérprete, da sua própria história, mesmo que não tenha o controle consciente sobre essa narrativa, ou sobre essa interpretação.

Freud afirma em determinado momento que o que é visto causa os sonhos, o que é vivido origina o trauma, e o que é escutado forma a base das fantasias. Seria então função das referências identitárias – ou talvez possamos falar mesmo de matrizes identitárias. Enfim, seria função dessas operações de reconhecimento, fornecer elementos de enunciação para que o sujeito possa construir as suas ficções e, a partir delas, colocar em circulação o seu desejo.

Para terminar, acho que é importante dizer que eu não acredito de modo algum que o sujeito deva assumir uma só identidade, como sabemos que ele não terá uma só fantasia, embora me sinta forçado a admitir que existam tramas de fantasia, e marcas identitárias mais fundamentais, ou mesmo mais vitais para o sujeito. O que eu proponho é que a partir da circulação entre diversas marcas identitárias o sujeito pode expandir os domínios da sua ação como sujeito e por em livre circulação os movimentos do seu desejo.

Se o meu desejo é codificado pela sociedade de consumo, enquadrado pelo senso comum, medicalizado, dopado, eu preciso então, para fazer circular o meu desejo e deixá-lo transformar-se, escapar dessas relações de dominação, circular entre diversas identidades, escrever diversas e distintas autobiografias, me explicar de diferentes maneiras. Assim, eu posso me transformar, agir, criar, enfim, ser livre e, talvez, feliz.

Isso é o que eu queria dizer hoje. Espero que vocês me perdoem se a leitura foi cansativa e peço também que me desculpem um eventual excesso de otimismo. Muito Obrigado.